A ORIGEM DA GESTÃO COLETIVA - Ruy Moreira

30 novembro 2008

A Gestão Coletiva (GC) nasceu do impasse político do 4º ENG em 1980, no Rio de Janeiro. Em si é a expressão do primeiro hiato sério por todos nós percebido entre a nova natureza de nossa entidade saída do Estatuto de 1979 e a realidade institucional e acadêmica da comunidade dos geógrafos. Mas se vem como solução do impasse é porque já estava contida no processo da renovação.

Havia na UFF (Universidade Federal Fluminense) um grupo de estudantes recém saídos do trotskismo para o anarquismo, criador da Seção Local de Niterói, que há tempo propugnava uma forma autogestionária para a AGB. Estes estudantes cumpriram papel fundamental nos resultados da Assembléia Estatutária de julho de 1979 e foram peça-chave na preparação do 4° ENG, realizada em tempo recorde de março a julho, justamente dado a maciça participação estudantil e, portanto, conheciam a nova entidade em toda a sua extensão.

São eles a origem da idéia da Gestão Coletiva. Quando portanto no último dia do ENG tomamos posse da Executiva Nacional da AGB para a gestão 1980-1982, uma solução do impasse de parto desagradável, apenas tiramos do movimento uma proposta que nele já estava posta. Correspondia a uma necessidade coletiva real, e por isto deu certo.

É que para a plenária do 4° ENG o que estava ocorrendo gerando tal impasse, era a constatação na prática de que numa entidade do porte territorial da AGB, a estrutura orgânica e administrativa estabelecida pelo Estatuto, de organização em bases municipais das Seções Locais e encimada por uma Diretoria Executiva Nacional (DEN), sem nenhuma instância por uma Diretoria, abria para a possibilidade da manipulação. Sem recursos financeiros mínimos e com uma DEN composta por oito membros territorialmente dispersos, dificilmente toda esta Diretoria poderia sempre reunir-se em sua totalidade, e por isto tenderia a acontecer da AGB ficar nacionalmente nas mãos de um outro dos seus nomes, num risco de emparelhamento muito grande. Nas duas Diretorias dos mandatos-tampão que dirigiram a AGB no período de 1979-1980, uma em cada semestre, já se pudera notar problemas. A presidência do segundo mandato, inclusive, renunciara, dado problemas internos da DEN. E agora estávamos vivendo esse impasse.

Até a primeira reunião das novas Diretorias (seccionais e nacional) a GC deixara apenas de ser uma idéia no ar. Só na primeira reunião de gestão coletiva (RGC), em Juiz de Fora, setembro de 1980, deu-se sua formulação acabada. Ficou definida como uma filosofia de gestão, antes de mais nada, numa inovação diante do Estatuto, que em verdade foi sua primeira reforma sem contudo alterar-lhe a essência. Seu funcionamento bem diz de seu caráter: antecedendo cada RGC, os sócios de cada Seção Local seriam convocados em Assembléia Local para discutir e deliberar sobre a pauta da reunião nacional enviada previamente pela DEN, tirando-se um delegado para dela participar, levando a posição do coletivo seccional. Com isto, a Gestão Coletiva definia-se como a gestão do coletivo de bases, através daquilo que o Estatuto define, ainda hoje, como o segundo órgão máximo (na verdade o principal) da entidade, logo abaixo da Assembléia Nacional: a Assembléia Seccional. A GC vinha assim, em reforço e na prática, para viabilizar concretamente o que depois da cidadania amplamente igual para todos os sócios era a segunda grande virtude do novo perfil da AGB: autonomia e soberania das Seções Locais. Tanto, que quando alguém associa-se a AGB não o faz filiando-se a DEN (não é uma entidade, mas a Diretoria Executiva Nacional) ou mesmo a RGC (não é uma entidade, mas a gestão coletiva e democrática da entidade em nível nacional pelas Locais juntas), e sim a uma Seção Local, esta sim uma entidade (a AGB, verdadeiramente).

Se, entretanto, a criação da GC trouxe algumas soluções, não deixou de pôr à transparência outros problemas do Estatuto, que só o tempo revelará. Para exemplificar, deixou com função vaga a DEN e burocratizou-se com o tempo ao transformar-se num coletivo das Diretorias, mais que numa gestão coletiva das Assembléias Seccionais. Além do que passou a ter seus próprios problemas, como delegados que passaram a externar opiniões suas e não do coletivo seccional e chegando à RGC em face disso muita vez até despreparado (como raramente tem sido sempre o mesmo, no que evita-se o exclusivismo, o rendimento e coerência não tem sido os esperados das RGCs), o fortalecimento de regionalismos e até mesmo a corroboração com práticas autoritárias com as seccionais, como a do último ENG, de Salvador, de descredenciar (não se encontra a palavra em qualquer artigo do estatuto) Seções, ferindo frontalmente a autonomia e soberania estatutária das Seções uma vez que suas Diretorias subordinam-se em suas ações somente à Assembléia Local, e em caso de necessidade, à Assembléia Nacional.

Desde então, todavia, a iniciativa de 1980 vingou como uma forma de garantir-se o fim que se pretendeu em julho de 1979 de uma entidade democraticamente de massa da comunidade da Geografia. Todas as Diretorias seguintes, seccionais e nacionais, reiteraram-na como forma de gestão nacional da AGB, chegando a ser, no 7º ENG em junho de 1988 em Maceió, incorporada estatutariamente (aumentando o quadro de problemas de construção interna do Estatuto), fazendo parte nesses mais de dez anos tão naturalmente da vida de nossa entidade que mesmo nos esquecemos que tem uma história e que hoje, na antevéspera de nova reforma estatutária, vale a pena lembrarmos.

1 comentários:

Astrogildo disse...

Muito boa a criação de mais um espaço onde possamos discutir, e se possível, materializar idéias.
Acho que existem alguns pontos que podem ser discutidos nesse texto. A concepção de gestão coletiva que vem direcionando a AGB nos últimos 30 anos deve ser encarada criticamente, entretanto, não podemos deixar de comentar que só o fato de persistir num momento histórico como este já dá uma caráter bastante diferenciado do movimento que existe dentro da AGB do que ocorre em outras entidades de cunho científico (vide os casos da ANPUH, ANPOCS, entre outros. O processo de infiltração do academicismo profissionalista dentro da entidade deve ser visto como resultante de dois fenômenos. Um, o enfraquecimento da esquerda em geral no Brasil e no mundo, abrindo margem para avanços dos setores mais conservadores da sociedade; Dois, o grande erro da AGB nesse período, ter permitido o distanciamento dos dois grupos que, historicamente, sempre engrossaram as suas fileiras física e politicamente: os estudantes e os professores da escola básica. Esse fenômeno paulatino ajudou a hegemonizar os grupos mais ligados a universidade nas lideranças da entidade (Mas atenção, isso significa um enfraquecimento das tendências mais democráticas e não o seu desaparecimento. Um aspecto que evidencia a AGB como movimento é exatamente o seu caráter de disputa por concepção). Creio que, depois de tudo isso, o que deve ser construído desde agora é: Primeiro, refazer a aliança histórica da entidade com os dois setores acima citados (o que de certa forma já vem sendo realizando aos poucos); Segundo, reconduzir a entidade nas suas articulações com a sociedade, recolocando o geógrafo em seu locus de agente transformador atráves de ciência geográfica. Para tanto, é indispensável a reabetura e fortalecento dos grupos de tranalho da entidade. Os ENGs são nada mais do que os grandes momentos em que se permite diagnosticar o que se passa na AGB. Cabe a nós dar início a um projeto coletivo de entidade agora para que, daqui a dois anos, possamos ratificá-lo publica e definitivamente em Porto Alegre